lunes, 22 de julio de 2013

Caín Violento


A prof diz que tenho de escrever duas páginas inteiras. Diz que é um castigo, porque me tenho portado mal. Eu não acho que me tenha portado mal nem nada. Quem se portou mal foi o Diogo, porque tentou empurrar-me pelas escadas da escola. E claro, eu empurrei-o também e ele caiu pelas escadas abaixo e tudo. A prof diz que sou mau e que sou “violento” e que ser “violento” está mal. A palavra “violento” é engraçada. Não sei muito bem o que quer dizer, mas soa esquisita e eu gosto de estar sempre a dizê-la. Acho que é quando pisas bichos e quando puxas o cabelo das meninas.

É muito engraçado pisar bichos porque tentam correr e fugir, mas eu sou maior e mais rápido do que eles e no fim achato-os sempre. Não gosto de pisar todos os bichos. Os moles sim. Gosto de pisar formigas e vermes, mas os caracóis e escaravelhos não, porque rangem e deixam o chão cheio de porcaria e da um bocadinho de nojo. As formigas com certeza nem sentem nada quando as piso. Uma vez, o Di trouxe uma tartaruga para a aula, mas não deixou que eu a tocasse porque disse que ia pisá-la. O Di chama-se Diamantino, mas como o nome dele e tão comprido todos lhe chamam Di. Eu chamo-me Vasco, mas na escola chamam-me sempre Caim. Eu gosto mais de Caim do que de Vasco. Se eu fosse maior de idade, mudava o meu nome e todos tinham de me chamar “senhor Caim” e punha um cartaz na porta que dissesse “Caim” com letras grandes: “Caim Violento”.

Mas eu não quero ser maior de idade. O meu avô era tão maior de idade que estava muito enrugado e já não falava bem, nem via bem. Mas não é por isso. Não quero ser maior de idade para não morrer. O meu avô morreu e toda a gente ficou triste lá em casa. E chegaram muitas pessoas na minha casa e a minha mãe vestiu-me muito elegante, mas a gravata fazia com que o meu pescoço picasse e com os sapatos doíam-me os pés e não podia correr nem perseguir as meninas. E também o casaco estava tão apertado e não podia usar a fisga nem nada.

E depois fomos todos a um parque da vila que é muito estranho, porque está cheio de pedras grandes e lisas com letras. E havia um buraco no chão e o meu avô, que estava numa caixa de madeira, foi metido no buraco. E depois cobriram-no de terra. E aí sim tive um bocadinho de medo, mas não muito, quase nada. Não quero ser maior de idade e morrer, para não ser coberto de terra. Com certeza a terra está fria e molhada, e a terra vai entrar no meu nariz quando eu respirar, e não nos podemos mexer. Com certeza a terra está cheia de bichos, de vermes e formigas. E sei que os bichos me odeiam por ter pisado todos os outros bichos.

Talvez se já não pisar mais nenhum bicho os outros bichos vão esquecer-se e não me fariam nada se eu morresse e fosse coberto de terra, mas acho que não. Os bichos são pequenos e as coisas pequenas são sempre más. Quando falam de um homem muito bom na televisão dizem sempre que “foi um grande homem”. E os bichos são pequenos, logo são maus e nunca me  vão perdoar. O que tenho de fazer é não morrer nunca, e para isso não posso ser maior de idade. E a minha mãe diz, quando eu sou mau e “violento”, que os meninos maiores e crescidos se portam bem. E eu não quero ser maior, assim porto-me mal para continuar a ser pequeno e não morrer.


Já tinha quase escritas as duas página e fui dizer à prof se já estava bem e se podia parar. Disse que não, que tinha de terminar a página toda. Caim Violento Caim Violento Caim Violento Caim Violento 

Caim Violento Caim Violento Caim Violento Caim Violento Caim Violento Caim Violento Caim Violento 

Caim Violento Caim Violento Caim Violento Caim Violento Caim Violento Caim Violento Caim Violento Já está!



 

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